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Já tinha alinhavado a postagem para depois da Páscoa seguir o caminho da libertação dos sentimentos quando, a história da Benvinda contada no blog Alfazema me lembrou uma outra estória escrita por uma menina de nove anos e que nos fala do amor das andorinhas pelos seus filhotes: .
"A volta das andorinhas
Quando chegava, poisava no beirado a olhar para a sua casinha. Parecia desconsolada, olhava para mim, olhava para o ninho, olhava para mim, batia as asas, mexia a cabeça para um lado e para o outro, dava uma volta pelo ar, tornava a voltar. Entendíamo-nos muito bem, a minha andorinha e eu.
Antes de me ir embora daquela casa e daquela torre, eu vi duas vezes a minha andorinha construir o ninho que tinha ficado estragado com o frio, o vento e a chuva. Trabalhava muito e muito depressa. Nunca percebi como é que fazia todas aquelas piruetas no ar e não caía. Trazia palhinhas e lama no bico e juntava tudo bem apertadinho até a casota ficar toda fechadinha. Só deixava um buraquinho para entrar e sair. Depois metia-se no ninho e punha ovinhos. Eram tantos como os dedos da minha mão. Sentava-se em cima dos ovos e ficava ali a guardá-los e a aquecê-los.
Eu ia todos os dias espreitar se os ovinhos já tinham estalado porque o meu tio me contava como é que os passarinhos nasciam. Que engraçado que era ver os pequeninos a picar os ovos para sair. Quando conseguiam libertar-se, ainda traziam bocadinhos da casca agarrada à pele. Nasciam sem penas. Só com uma pequena penugem. Recordo-me de que foi nessa altura que eu fiz a ligação àquele conto de fadas: «A Bela e o Monstro». Eu achava os passaritos bonitos de feios e via o amor com que a mãe e o pai andorinhas ensinavam os filhotes a voar, com muito cuidado, para eles não caírem. Punham-lhe a comida no bico para aprenderem a comer.
Olhando para aquela família eu pensava que gostava de ser andorinha para ter todos aqueles miminhos. Acho que a minha mãe nunca me deu mimos. Pelo menos não me lembro. Safanões, sim. Muitos e quase todos os dias. Era só abrir a boca ou mexer em qualquer coisa em que ela achava que eu não devia tocar. E era quase tudo. Via-se mesmo que não gostava de mim e tinha até raiva do pouco espaço que eu ocupava.
Se eu tivesse nascido andorinha, podia voltar todos os anos à minha torre, e o resto do tempo voar para muito longe e conhecer muitas terras."
Esta história vem escrita no livro "As Bruxas da Serra da Fóia" (imagem da capa aqui ao lado)